Ansiedade e angústia: uma leitura psicanalítica do sofrimento contemporâneo

Uma leitura psicanalítica da ansiedade e da angústia, articulando a teoria freudiana às formas contemporâneas de sofrimento e à singularidade da experiência de cada sujeito.

ARTIGOS

Sérgio Rabelo

9/22/202623 min read

Representação visual da ansiedade e da agitação mental.
Representação visual da ansiedade e da agitação mental.

Introdução — Quando o perigo não tem nome

Há momentos em que sabemos exatamente aquilo que tememos. Tememos perder o emprego. Tememos receber um diagnóstico. Tememos o fim de uma relação. Tememos não conseguir pagar uma dívida, fracassar numa tarefa importante ou perder alguém que amamos. Existe um objeto reconhecível diante do medo.

Mas há outras experiências em que o sofrimento não se apresenta dessa maneira. O coração acelera. O corpo permanece em estado de alerta. O pensamento antecipa cenários. Surge uma sensação de que alguma coisa poderá acontecer, embora nem sempre seja possível dizer exatamente o quê. Em alguns casos, a pessoa consegue enumerar dezenas de preocupações e, ainda assim, permanece com a impressão de que nenhuma delas explica inteiramente aquilo que sente.

É nesse território que a distinção entre medo, ansiedade e angústia começa a tornar-se importante. No uso cotidiano, essas palavras frequentemente aparecem como sinônimos. No campo clínico, porém, elas podem designar fenômenos diferentes. E, na Psicanálise, a angústia ocupa uma posição particularmente importante porque não é compreendida apenas como um estado emocional desagradável que precisa desaparecer. Ela pode funcionar como sinal.

Algo está acontecendo no sujeito, mesmo quando ele ainda não consegue formular em palavras aquilo que está acontecendo. Essa perspectiva não significa transformar todo sofrimento ansioso em problema psicanalítico, muito menos ignorar aquilo que a psiquiatria, a psicologia clínica e as neurociências desenvolveram sobre os transtornos de ansiedade.

Os dados contemporâneos mostram que estamos diante de um problema de saúde mental de grande magnitude. Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 359 milhões de pessoas viviam com transtornos de ansiedade em 2021, correspondendo a cerca de 4,4% da população mundial. Mas uma estatística responde a uma pergunta e a clínica responde a outra. A epidemiologia pode indicar quantas pessoas apresentam determinado conjunto de sintomas. A investigação psicanalítica pergunta:

que lugar esse sofrimento ocupa na história daquele sujeito?

Uma abordagem não precisa excluir a outra.

Ansiedade não significa necessariamente transtorno de ansiedade

Antes de avançarmos para Freud, uma distinção é indispensável. Sentir ansiedade não significa necessariamente possuir um transtorno de ansiedade. Ansiedade também pertence à experiência humana. Uma entrevista profissional importante pode produzir ansiedade. Uma viagem, uma prova, uma cirurgia, uma mudança de país, o início de uma relação ou uma decisão difícil podem colocar o organismo e o pensamento em estado de antecipação.

Existe uma diferença entre essa experiência e situações nas quais medo e preocupação se tornam intensos, persistentes, difíceis de controlar e suficientemente importantes para comprometer a vida cotidiana. É nesse segundo território que entram categorias clínicas como transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de pânico, ansiedade social e outras condições reconhecidas nos sistemas contemporâneos de classificação.

Essa ressalva é importante porque existe atualmente uma tendência cultural a transformar rapidamente experiências humanas em diagnósticos. Uma pessoa está triste e pergunta se está deprimida. Está inquieta e pergunta se possui ansiedade. Tem dificuldade de concentração e procura imediatamente uma categoria que explique aquilo que acontece.

Diagnósticos podem ser fundamentais quando utilizados adequadamente. Permitem organizar conhecimento, orientar intervenções e reconhecer quadros que exigem cuidado. O problema aparece quando o nome do transtorno encerra a investigação.

Para a Psicanálise, mesmo quando existe um diagnóstico, ainda permanece uma pergunta:

como esse sofrimento se organiza naquela pessoa?

Duas pessoas podem apresentar sintomas aparentemente semelhantes e viver conflitos profundamente diferentes. É justamente a singularidade que interessa à escuta analítica.

Freud e o problema da angústia

A angústia acompanhou Freud durante grande parte de sua construção teórica. E sua compreensão sobre ela não permaneceu igual. Esse ponto é importante porque às vezes se fala em “a teoria freudiana” como se Freud tivesse formulado determinada explicação no início de sua obra e simplesmente a repetido até o fim. Não foi assim.

Freud reformulou conceitos, abandonou algumas hipóteses, modificou outras e reconheceu problemas nas próprias formulações anteriores. A teoria da angústia é um excelente exemplo.

Em suas primeiras formulações, Freud procurou compreender determinadas manifestações de angústia relacionando-as à economia da excitação e às vicissitudes da vida sexual. Posteriormente, sobretudo em Inibição, sintoma e angústia, publicado em 1926, ele realiza uma revisão importante de sua posição.

Em determinada etapa de sua teoria, Freud havia relacionado a angústia ao processo de recalque de modo que a libido submetida ao recalque poderia transformar-se em angústia. Na formulação posterior, a relação é reconsiderada. A angústia passa a ser compreendida também como aquilo que sinaliza um perigo e mobiliza defesas.

Essa inversão é decisiva. Em vez de pensarmos apenas “algo foi recalcado e produziu angústia”, podemos perguntar:

que perigo psíquico está sendo anunciado pela angústia, fazendo com que o sujeito precise defender-se?

Angústia como sinal

Quando falamos em perigo, não estamos falando necessariamente de uma ameaça objetiva presente no ambiente. O perigo pode ser psíquico. Pode envolver a possibilidade de perda: perda do objeto amado, perda do amor, perda de uma posição, ameaça de punição, conflito entre um desejo e aquilo que o sujeito considera permitido desejar, ou a possibilidade de que alguma representação, fantasia ou impulso se aproxime demais da consciência.

A angústia funciona, então, como um sinal de alarme. Essa metáfora precisa ser utilizada com cuidado, mas é útil. Imagine um alarme de incêndio. O som do alarme não é o incêndio. Ele indica que existe — ou que o sistema acredita existir — uma situação de perigo.

Da mesma maneira, concentrar-se exclusivamente em eliminar a experiência da angústia pode, em determinados casos, equivaler a preocupar-se apenas em silenciar o alarme sem investigar aquilo que o fez disparar.

Isso não significa que o sofrimento deva ser romantizado. Uma crise intensa de ansiedade pode ser devastadora. Pode exigir intervenção clínica e, dependendo do quadro, avaliação médica e tratamento medicamentoso. A Psicanálise não precisa negar essas possibilidades para sustentar sua própria contribuição.

Sua pergunta é outra. Depois de reconhecer o sofrimento, ela procura compreender:

por que esse alarme toca aqui? Por que toca agora? E o que, para este sujeito, está sendo vivido como perigo?

Essa mudança de pergunta abre uma dimensão que a simples descrição do sintoma não alcança. Porque talvez a pessoa diga: “Tenho medo de fracassar.” Mas a investigação poderá revelar que não é apenas o fracasso que a angustia. Pode ser aquilo que imagina que perderá se fracassar: o reconhecimento de alguém, a imagem que construiu de si mesma, a sensação de ser digna de amor, o lugar que acredita ocupar diante da família.

se eu não for aquilo que esperam de mim, quem sou eu?

É nesse ponto que a angústia deixa de ser apenas um desconforto a eliminar e começa a revelar alguma coisa sobre a relação do sujeito consigo mesmo, com seu desejo e com os outros.

A tentativa de controlar o futuro

A ansiedade possui uma relação particular com o tempo. Muitas vezes, ela não está centrada no que está acontecendo agora, mas naquilo que poderá acontecer. “E se eu perder?” “E se não der certo?” “E se eu adoecer?” “E se essa pessoa me abandonar?” “E se eu não conseguir?” O acontecimento ainda não ocorreu, mas psiquicamente já começou a produzir efeitos.

O sujeito tenta antecipar todas as possibilidades porque imagina que, se conseguir prever suficientemente o futuro, talvez consiga proteger-se dele. Planeja. Revisa. Confere. Imagina cenários. Procura garantias. Pergunta repetidamente se está tudo bem. Volta mentalmente a situações passadas tentando descobrir algum sinal que não percebeu. Projeta conversas que ainda não aconteceram. Calcula aquilo que poderá dizer caso alguma coisa aconteça.

A princípio, esses comportamentos podem produzir uma sensação de controle. Mas existe um problema fundamental: o futuro nunca pode ser inteiramente controlado. Por isso, quanto mais absoluta se torna a necessidade de certeza, mais ameaçadora pode tornar-se a própria incerteza.

O sujeito não procura apenas uma resposta. Procura uma garantia. E garantias absolutas raramente existem. Esse mecanismo ajuda a compreender por que algumas formas de ansiedade parecem alimentar-se das próprias tentativas de eliminá-las.

A pessoa pensa para deixar de pensar. Confere para deixar de duvidar. Procura certeza para deixar de sentir insegurança. Mas cada nova verificação pode ensinar ao psiquismo exatamente o contrário: que talvez exista mesmo alguma coisa perigosa que precise continuar sendo verificada.

por que a incerteza é tão insuportável para este sujeito?

O sofrimento de não corresponder

Uma das formas contemporâneas da angústia aparece ligada à experiência de insuficiência. Não basta trabalhar. É necessário ter sucesso. Não basta possuir um corpo. É necessário que ele corresponda a determinados padrões. Não basta viver uma relação. Ela precisa parecer satisfatória. Não basta realizar alguma coisa. É preciso demonstrar que se está realizando.

A vida passa facilmente a ser comparada com outras vidas. As redes sociais não criaram o desejo humano de reconhecimento, nem inventaram a comparação. Mas produziram condições inéditas para que o sujeito seja continuamente exposto a imagens selecionadas da vida dos outros.

Ele compara seus bastidores com a apresentação pública alheia. Compara sua insegurança com a aparente segurança dos outros. Seu corpo com corpos escolhidos, tratados e enquadrados para serem vistos. Sua trajetória real com versões editadas de trajetórias alheias. Sua rotina com momentos extraordinários que aparecem na tela como se fossem cotidianos.

A literatura científica contemporânea não autoriza uma afirmação simplista segundo a qual redes sociais “causam ansiedade” de maneira uniforme. Os efeitos encontrados variam conforme idade, padrão de uso, vulnerabilidades individuais, contexto e tipo de interação. Revisões recentes descrevem relações heterogêneas, embora o uso problemático de redes sociais apresente associação positiva com sintomas de ansiedade.

Essa cautela é importante. A Psicanálise perde rigor quando utiliza a sociedade contemporânea como explicação universal para todos os sofrimentos. Nem toda ansiedade é causada pelo trabalho. Nem toda angústia é consequência das redes sociais. Nem todo perfeccionismo nasce da cultura de desempenho. O contexto oferece formas, discursos e objetos aos quais o sofrimento pode ligar-se. Mas cada sujeito se apropria deles a partir de sua própria história.

“Eu preciso dar conta”

Talvez uma das frases que melhor expressem determinada modalidade contemporânea de sofrimento seja: “Eu preciso dar conta.” Dar conta do trabalho. Da família. Da aparência. Da relação. Dos estudos. Do futuro. Das finanças. Da saúde. Da produtividade. E, paradoxalmente, até da própria saúde mental.

É necessário dormir bem, alimentar-se corretamente, praticar exercício, administrar emoções, estabelecer limites, manter relações saudáveis, desenvolver inteligência emocional e ainda conseguir sentir-se bem durante o processo. Práticas de cuidado são importantes. O problema surge quando o próprio cuidado se transforma em mais uma exigência diante da qual o sujeito pode fracassar.

Nesse momento, até descansar pode produzir culpa. A pessoa interrompe o trabalho, mas continua pensando que deveria estar produzindo. Tira férias e precisa aproveitá-las corretamente. Reserva algum tempo para si e imediatamente calcula aquilo que deixou de fazer. O corpo parou. A exigência, não.

A Psicanálise possui um conceito particularmente fértil para pensar essa experiência: o supereu. Seria simplista descrevê-lo apenas como “consciência moral”. Na teoria freudiana, ele participa das exigências, proibições, ideais e julgamentos que o sujeito dirige contra si próprio.

Em determinadas configurações, essa instância pode assumir uma severidade extraordinária. Nada é suficiente. Uma realização imediatamente produz a obrigação seguinte. O sujeito alcança aquilo que desejava e, em vez de experimentar satisfação, pergunta: “E agora?” A meta desloca-se. O padrão aumenta. A dívida consigo mesmo nunca termina.

Nesse cenário, a angústia pode surgir não apenas diante da possibilidade de perder alguma coisa, mas diante da sensação permanente de não ser suficiente.

O ideal e o olhar do outro

Isso nos conduz novamente a uma questão central da Psicanálise: nossa relação conosco não se constrói isoladamente. Desde cedo, somos olhados, nomeados, reconhecidos, comparados, aprovados e desaprovados. Aprendemos alguma coisa sobre quem somos também através daquilo que percebemos no olhar daqueles que são importantes para nós.

Com o desenvolvimento, essas referências não simplesmente desaparecem. Parte delas é internalizada. Podemos continuar tentando corresponder a expectativas mesmo quando as pessoas que originalmente as formularam já não estão presentes.

Um adulto pode organizar grande parte de sua vida em torno de uma exigência cuja origem quase nunca questionou. “Preciso ser forte.” “Não posso decepcionar.” “Tenho que provar que consigo.” “Não posso depender de ninguém.” “Preciso ser o melhor.” “Não posso demonstrar fraqueza.”

Em algum momento, talvez essas frases tenham tido uma história. Talvez tenham ajudado o sujeito a encontrar reconhecimento, evitar críticas, preservar vínculos ou construir um lugar dentro da família. O problema é que estratégias psíquicas que um dia tiveram alguma função podem continuar operando quando o contexto já mudou.

O adulto continua respondendo a uma exigência antiga como se ainda dependesse dela para preservar algo fundamental. É por isso que a pergunta psicanalítica não é simplesmente “Como faço para parar de sentir ansiedade?” Em determinados momentos, será necessário perguntar:

A serviço de quê essa ansiedade está funcionando?

Quando o corpo fala primeiro

Há ainda situações em que toda essa elaboração parece acontecer numa ordem inversa. A pessoa não começa com um pensamento e depois percebe a ansiedade. O corpo reage primeiro. Taquicardia. Sudorese. Tremor. Tensão muscular. Falta de ar. Aperto no peito. Desconforto abdominal. Tontura. Sensação de perda de controle.

Em uma crise de pânico, por exemplo, sintomas podem surgir abruptamente e atingir grande intensidade. Do ponto de vista clínico, sintomas físicos novos, intensos ou inexplicados não devem ser automaticamente atribuídos à ansiedade, porque diferentes condições médicas podem produzir manifestações semelhantes. Avaliação adequada é especialmente importante quando há dor no peito, falta de ar importante, desmaio ou outros sinais preocupantes.

Reconhecer essa dimensão corporal não contradiz a Psicanálise. Ao contrário. O corpo sempre ocupou lugar importante na investigação freudiana. Mas o corpo da Psicanálise não é apenas organismo biológico. É também um corpo atravessado por experiências, significados e história.

Eu sei que não há motivo para estar assim, mas meu corpo não acredita em mim.

Talvez essa frase revele algo importante. O conhecimento racional e a experiência psíquica não são a mesma coisa. Saber que algo é improvável não significa deixar de temê-lo. Saber que determinada relação terminou não significa que a perda já tenha sido elaborada. Saber que não precisamos agradar a todos não significa que suportemos facilmente a desaprovação. Saber que somos competentes não impede necessariamente o medo de fracassar.

É justamente nessa distância entre aquilo que o sujeito sabe e aquilo que continua sentindo, repetindo ou temendo que a investigação psicanalítica encontra parte de seu campo.

As defesas contra a angústia

Quando alguma coisa é vivida psiquicamente como perigosa, o sujeito procura defender-se. Isso não significa que exista uma decisão consciente do tipo: “vou criar uma defesa para não sentir isso”. Grande parte desse funcionamento ocorre sem que tenhamos consciência dele.

E as defesas não são, por si mesmas, sinais de doença. Elas fazem parte do funcionamento psíquico. O problema aparece quando determinadas estratégias se tornam rígidas, repetitivas ou custosas demais.

Uma pessoa pode evitar situações que despertam ansiedade. Outra procura controlar cada detalhe. Outra precisa receber constantemente garantias daqueles que estão ao seu redor. Outra trabalha sem parar. Outra tenta transformar toda experiência emocional em explicação racional. Outra adia decisões porque decidir significa também renunciar às possibilidades que não foram escolhidas.

Em curto prazo, essas estratégias podem diminuir o desconforto. Mas aquilo que reduz a angústia imediatamente nem sempre resolve aquilo que a produz. Às vezes, acontece justamente o contrário.

Quanto mais o sujeito organiza sua vida para nunca encontrar determinada experiência, maior pode tornar-se o poder daquela experiência sobre ele. A pessoa que precisa evitar qualquer possibilidade de rejeição pode restringir progressivamente seus relacionamentos. Aquela que não suporta errar pode evitar situações nas quais ainda não domina aquilo que precisa fazer. Aquela que precisa controlar tudo pode tornar-se cada vez menos capaz de conviver com o imprevisível.

A defesa protege. Mas também pode aprisionar.

Evitar não é elaborar

Essa diferença é central. Não entrar em contato com uma experiência não significa tê-la elaborado. Podemos afastar uma situação e continuar psiquicamente organizados em torno dela.

Alguém pode dizer: “Isso já não me afeta porque nunca mais penso no assunto.” Talvez seja verdade. Mas também é possível que toda a sua vida esteja sendo organizada para garantir que aquele assunto nunca precise ser pensado. A ausência de pensamento consciente, portanto, não prova ausência de conflito.

É justamente aqui que o conceito de recalque mantém sua importância. Aquilo que é recalcado não desaparece simplesmente. Pode continuar produzindo efeitos através de sintomas, sonhos, atos falhos, repetições, fantasias e diferentes formas de sofrimento.

Isso não significa que todo sintoma possua uma interpretação secreta pronta à espera de ser descoberta. A clínica psicanalítica não deveria funcionar como um dicionário no qual cada manifestação corresponde automaticamente a um significado. “Se você sente isso, significa aquilo.” Esse tipo de interpretação transforma a singularidade em fórmula.

O sentido precisa ser construído a partir da história e das associações do próprio sujeito.

O paradoxo da evitação

Existe um paradoxo importante na ansiedade. Quanto mais uma pessoa evita alguma situação porque acredita não conseguir suportar a ansiedade que ela provoca, menos oportunidades possui de descobrir que talvez consiga suportá-la. A evitação pode então confirmar a própria crença que a produziu.

“Só fiquei bem porque não fui.” “Só não aconteceu nada porque conferi novamente.” “Só consegui porque alguém estava comigo.” “Só estou seguro porque mantive tudo sob controle.” O alívio imediato fortalece a necessidade de repetir a estratégia.

Esse mecanismo é amplamente reconhecido também fora da Psicanálise e ocupa lugar importante nos modelos comportamentais contemporâneos dos transtornos de ansiedade. A contribuição psicanalítica não precisa competir com essa explicação. Pode acrescentar outra pergunta:

por que aquela situação adquiriu precisamente esse significado para aquela pessoa?

Duas pessoas podem evitar falar em público. Uma teme parecer incompetente. Outra teme ser ridicularizada. Outra pode temer ser percebida e julgada. O comportamento observável é semelhante. O conflito não necessariamente é.

O desejo também pode angustiar

Há uma dimensão ainda mais delicada. Nem sempre a angústia aparece apenas diante daquilo que o sujeito não quer. Ela também pode surgir diante daquilo que ele quer.

Desejar possui consequências. Escolher uma profissão pode significar abandonar outra possibilidade. Assumir uma relação pode exigir renunciar a outras. Separar-se pode significar enfrentar culpa. Mudar de cidade pode significar afastar-se da família. Dizer “não” pode colocar em risco a imagem de pessoa disponível que alguém construiu durante anos. Aceitar uma oportunidade pode obrigar o sujeito a abandonar a posição conhecida na qual se sentia protegido.

Por isso, a pergunta “o que você deseja?” pode ser muito mais perturbadora do que parece. Às vezes, o sujeito sabe perfeitamente aquilo que os outros esperam dele. Sabe o que a família considera correto. Sabe o que sua comunidade valoriza. Sabe o que socialmente representa sucesso. Sabe aquilo que deveria querer. Mas quando se pergunta o que ele próprio deseja, encontra silêncio, culpa ou angústia.

Isso não significa que desejar seja simplesmente fazer aquilo que se tem vontade. A vida humana acontece entre desejo, responsabilidade, limites, vínculos e consequências. A questão psicanalítica é outra:

quanto da vida do sujeito está sendo organizado para evitar o conflito de reconhecer aquilo que deseja?

Liberdade também produz angústia

Costumamos imaginar que sofrimento é produzido principalmente por impedimentos. Não posso. Não consigo. Não me deixam. Não tenho oportunidade.

Mas possibilidades também podem angustiar.

Enquanto uma escolha não é feita, diferentes futuros permanecem imaginariamente disponíveis. Quando escolhemos, alguma coisa necessariamente fica para trás. Toda escolha contém alguma forma de perda.

Isso ajuda a compreender por que determinadas pessoas permanecem durante anos diante de decisões que aparentemente poderiam ser tomadas. Não se trata necessariamente de falta de informação. Às vezes, o sujeito já possui informação suficiente. O que não consegue é aceitar aquilo que a decisão implicará.

Procura então a escolha perfeita. A decisão sem perda. A relação sem risco. A profissão sem renúncia. O investimento sem incerteza. A vida sem contingência.

Mas essa alternativa não existe.

Em determinadas situações, a ansiedade pode tornar-se uma tentativa interminável de encontrar uma certeza que dispense o sujeito de assumir a responsabilidade de escolher.

O passado no presente

Quando Freud investiga sintomas, não está interessado no passado apenas por curiosidade histórica. A questão é compreender de que maneira determinadas experiências continuam presentes na organização psíquica atual.

Uma criança que aprendeu que errar produzia humilhação pode tornar-se um adulto extremamente competente e ainda assim experimentar cada possibilidade de falha como ameaça desproporcional. Alguém que viveu relações afetivas marcadas por instabilidade pode encontrar grande dificuldade em confiar, mesmo quando está diante de uma relação diferente.

Uma pessoa cuja segurança dependia de antecipar o humor daqueles que estavam ao redor pode tornar-se extraordinariamente atenta aos sinais dos outros. Percebe mudanças de tom. Silêncios. Expressões faciais. Demoras numa resposta. Pequenas alterações de comportamento. Aquilo que em determinado momento pode ter funcionado como adaptação transforma-se, em outro contexto, numa vigilância quase permanente.

Mas aqui também precisamos evitar determinismo. Ter vivido determinada experiência não condena ninguém a repetir indefinidamente determinada forma de funcionamento. A história influencia. Não sentencia. A própria possibilidade de análise depende dessa abertura.

Repetição: quando o cenário muda, mas algo permanece

Há pessoas que chegam à clínica dizendo: “Não entendo por que isso sempre acontece comigo.” Mudam os relacionamentos. Mudam os empregos. Mudam as cidades. Mudam os grupos. Mas determinado sofrimento parece reaparecer.

A princípio, a explicação pode ser encontrada exclusivamente no exterior. “Só encontro pessoas assim.” “Todos os meus chefes são iguais.” “Ninguém reconhece aquilo que faço.” Às vezes, essas afirmações descrevem situações reais. Existem relações abusivas. Existem ambientes profissionais adoecedores. Existem injustiças.

A Psicanálise não deveria transformar toda experiência concreta em fantasia do sujeito.

Mas quando determinadas configurações se repetem, surge uma pergunta legítima:

qual é a participação do próprio sujeito naquilo que se repete?

Participação não significa culpa. Significa reconhecer que talvez existam escolhas, expectativas, formas de vínculo ou posições subjetivas que contribuam para reconstruir cenários conhecidos. E reconhecer essa participação é importante justamente porque abre uma possibilidade de mudança.

Aquilo em que não possuímos participação alguma só pode ser suportado. Aquilo de que participamos pode, em alguma medida, ser transformado.

Escutar a angústia não significa obedecer a ela

Chegamos, então, a uma distinção fundamental. Se a angústia pode funcionar como sinal, isso não significa que ela esteja sempre dizendo a verdade sobre o perigo. Um alarme pode disparar diante de uma ameaça real. Mas também pode disparar porque o sistema se tornou excessivamente sensível.

O sujeito pode sentir intensamente que será abandonado sem que exista qualquer evidência concreta de abandono. Pode sentir que fracassará sem que seu desempenho indique isso. Pode experimentar uma crítica como catástrofe sem que aquela crítica possua o poder que lhe foi atribuído.

A experiência é real. A ameaça percebida não necessariamente corresponde à realidade externa. Por isso, escutar a angústia não significa submeter-se a ela. Significa investigar.

O que está sendo vivido como perigo? Esse perigo está no presente ou pertence, em parte, a outra história? O que o sujeito acredita que perderá se aquilo acontecer? E por que essa perda parece tão difícil de suportar?

Quando essas perguntas começam a ser formuladas, a angústia deixa de ocupar apenas o lugar de inimiga. Ela pode tornar-se uma via de acesso a conflitos que até então apareciam somente através do sofrimento.

Mas há um cuidado decisivo. Compreender o sentido psíquico de um sintoma não significa supor que toda ansiedade possa ou deva ser tratada exclusivamente pela Psicanálise. É necessário saber também quando a escuta precisa dialogar com outras formas de cuidado.

Quando procurar ajuda

Ansiedade e angústia fazem parte da experiência humana. Por isso, o objetivo de uma abordagem clínica não pode ser construir uma vida na qual nenhuma delas exista. Uma existência completamente protegida da incerteza, da perda, do conflito e da frustração simplesmente não é possível.

Há, porém, uma diferença importante entre experimentar ansiedade em determinados momentos e viver submetido a ela. Quando o sofrimento se torna intenso ou persistente, compromete sono, trabalho, estudos, relações, alimentação, mobilidade ou outras dimensões da vida cotidiana, procurar avaliação profissional é uma medida de cuidado.

O mesmo vale quando crises se repetem, quando a pessoa começa a restringir significativamente sua vida para evitar situações temidas ou quando percebe que já não consegue manejar sozinha aquilo que está acontecendo.

Existem diferentes modalidades de tratamento com evidências para transtornos de ansiedade. A Organização Mundial da Saúde recomenda intervenções psicológicas estruturadas e, para determinados quadros em adultos, considera também o uso de medicamentos conforme avaliação clínica.

A Psicanálise ocupa um lugar específico nesse campo. Ela não oferece simplesmente técnicas para eliminar sensações desagradáveis. Sua proposta é criar condições para que o sujeito possa falar, associar e investigar a maneira singular como seu sofrimento foi constituído.

Isso não significa que alívio sintomático seja irrelevante. Quem sofre quer sofrer menos — e isso é perfeitamente legítimo. A questão é que, em determinados casos, reduzir o sintoma sem compreender aquilo que participa de sua produção pode deixar intactos conflitos que posteriormente encontrarão outras formas de expressão.

Por outro lado, seria igualmente inadequado transformar essa possibilidade numa regra universal. Nem todo sintoma esconde necessariamente um conflito profundo que precisa ser descoberto antes que possa melhorar. Nem toda pessoa precisa de anos de análise. E nenhum profissional responsável deveria desencorajar avaliação médica ou outras modalidades de tratamento quando elas são indicadas.

A clínica exige menos disputa entre escolas e mais capacidade de reconhecer aquilo de que cada pessoa necessita.

A medicação e o falso dilema

Um dos equívocos que ainda aparecem em alguns discursos sobre sofrimento psíquico é apresentar psicoterapia e medicação como alternativas moralmente opostas. Como se recorrer a medicamentos significasse fracasso. Ou como se utilizar medicação impedisse qualquer trabalho psíquico. Esse antagonismo não se sustenta.

Medicamentos prescritos adequadamente podem ser importantes no tratamento de determinados quadros de ansiedade. Em alguns casos, a redução da intensidade dos sintomas permite justamente que a pessoa recupere condições para trabalhar, dormir, relacionar-se e participar de um processo psicoterapêutico.

Ao mesmo tempo, medicamento não responde necessariamente às perguntas sobre a história, os conflitos, os vínculos e os significados que participam da experiência daquele sujeito. São níveis diferentes de intervenção.

A pergunta clínica adequada não é “medicação ou palavra?”, mas “de que cuidado esta pessoa necessita neste momento?”

Em determinadas situações, a resposta poderá envolver apenas acompanhamento psicoterapêutico. Em outras, avaliação psiquiátrica e tratamento medicamentoso. Em outras ainda, uma combinação de abordagens. Reconhecer esses limites não enfraquece a Psicanálise. Ao contrário. Impede que ela se transforme numa doutrina que pretende explicar e tratar tudo sozinha.

O que significa melhorar?

Essa pergunta parece simples. Mas talvez não seja. Se alguém procura tratamento porque sente ansiedade, a resposta mais imediata seria: melhorar significa deixar de sentir ansiedade. Em determinados quadros, reduzir a frequência e a intensidade dos sintomas será realmente um objetivo importante.

Mas, do ponto de vista psicanalítico, podemos ampliar a questão. Talvez melhorar também signifique não precisar organizar toda a vida para evitar a possibilidade de sentir angústia.

Signifique conseguir permanecer numa situação de incerteza sem imediatamente procurar uma garantia impossível. Conseguir receber uma crítica sem experimentá-la como destruição da própria identidade. Reconhecer um desejo sem precisar negá-lo imediatamente. Dizer “não” sem ser consumido pela culpa. Aceitar que uma escolha implica renúncia. Perceber que o outro pode desaprovar e, ainda assim, a relação consigo mesmo não precisa desmoronar.

Signifique distinguir aquilo que realmente representa perigo daquilo que apenas desperta uma antiga sensação de perigo. Nesse sentido, o objetivo não é produzir um sujeito invulnerável. Tal sujeito não existe.

A possibilidade de amar inclui a possibilidade de perder. A possibilidade de escolher inclui a possibilidade de errar. A possibilidade de construir algo inclui a possibilidade de fracassar. A possibilidade de estabelecer vínculos inclui a possibilidade de ser frustrado.

Eliminar completamente a angústia exigiria, em última instância, eliminar também grande parte daquilo que torna a vida humana aberta, imprevisível e significativa.

Da eliminação à elaboração

Talvez uma das contribuições mais importantes da Psicanálise esteja justamente na mudança de posição diante do sofrimento. Nossa tendência compreensível é perguntar: “Como faço isso parar?” Às vezes, essa pergunta precisa realmente ser respondida com urgência.

Mas, quando existem condições para investigar, outra pode ser acrescentada: “O que está acontecendo comigo quando isso aparece?” Essa segunda pergunta não glorifica o sofrimento. Ela procura transformá-lo em algo que possa ser pensado.

Aquilo que inicialmente aparece apenas como sensação corporal, medo difuso ou repetição pode começar a adquirir palavras. E colocar em palavras não significa simplesmente explicar racionalmente. O sujeito pode saber intelectualmente muitas coisas sobre si mesmo e continuar repetindo-as.

A elaboração exige tempo porque envolve reconhecer relações entre experiências que antes pareciam separadas. O medo atual pode tocar numa perda antiga. A necessidade de controle pode estar relacionada a uma história marcada pela imprevisibilidade. O perfeccionismo pode revelar uma tentativa de preservar reconhecimento. A dificuldade de dizer “não” pode estar ligada ao temor de perder amor. A incapacidade de descansar pode carregar uma exigência internalizada segundo a qual valor pessoal depende de produtividade.

Nenhuma dessas relações deve ser presumida antes de ser escutada. Elas são possibilidades clínicas, não fórmulas interpretativas.

O sofrimento contemporâneo e suas novas linguagens

O mundo em que Freud construiu a Psicanálise não é o nosso. Mudaram as relações de trabalho. Mudaram as estruturas familiares. Mudaram as formas de comunicação. Mudaram as experiências de intimidade. Mudou a velocidade de circulação da informação. Surgiram redes sociais, dispositivos permanentemente conectados e formas de exposição e comparação que Freud jamais poderia ter observado.

Por isso, utilizar a Psicanálise hoje não significa simplesmente repetir respostas formuladas há mais de um século. Significa perguntar se determinados conceitos ainda possuem capacidade de iluminar experiências atuais. A angústia parece ser um deles.

O cenário muda. Os objetos aos quais o sofrimento se liga também mudam. Mas continuam presentes questões como perda, reconhecimento, desejo, conflito, culpa, idealização, dependência, medo e relação com o outro.

Talvez uma das características contemporâneas seja justamente a multiplicação das maneiras pelas quais essas questões podem aparecer. O sujeito pode procurar reconhecimento numa relação íntima e também numa tela. Pode sentir-se cobrado por uma figura familiar e simultaneamente por métricas profissionais. Pode comparar-se com pessoas de seu círculo próximo e, em poucos minutos, com milhares de desconhecidos. Pode terminar o expediente e continuar conectado ao trabalho. Pode estar fisicamente sozinho e permanecer permanentemente exposto ao olhar dos outros.

A tecnologia modifica o cenário. Mas não elimina o sujeito que precisa encontrar alguma maneira de viver dentro dele.

Considerações finais

Ansiedade e angústia não são simplesmente defeitos que precisam ser retirados da experiência humana. Elas podem assumir formas profundamente incapacitantes e exigir tratamento. Mas também podem funcionar como sinais de que alguma coisa, interna ou externa, está sendo vivida como perigo.

A contribuição psicanalítica começa quando, além de perguntar como diminuir o sofrimento, perguntamos o que esse sofrimento significa na história singular de quem o vive.

Freud modificou sua própria compreensão da angústia justamente porque percebeu que ela não poderia ser reduzida a uma simples consequência automática do recalque. Ao concebê-la como sinal diante de uma situação de perigo, abriu uma questão que continua clinicamente fértil:

o que o sujeito acredita estar prestes a perder?

Talvez seja amor. Reconhecimento. Controle. Uma imagem ideal de si mesmo. Uma relação. Uma posição. Uma certeza. Ou talvez aquilo que esteja ameaçado seja justamente a maneira como aprendeu, durante muito tempo, a compreender quem é.

A sociedade contemporânea oferece novos cenários para essas antigas questões. Exige desempenho. Amplifica comparação. Acelera comunicação. Multiplica estímulos. Diminui fronteiras entre trabalho e descanso. Mas nenhuma dessas características explica sozinha a angústia de uma pessoa.

O contexto importa. A história importa. E a singularidade continua importando.

Por isso, diante da ansiedade, talvez existam momentos em que seja necessário aprender técnicas para respirar, reorganizar hábitos, reduzir estímulos, receber tratamento médico ou utilizar medicamentos. Tudo isso pode fazer parte de um cuidado legítimo.

Mas existem também momentos em que outra pergunta precisa encontrar espaço:

Por que isso me angustia dessa maneira?

Não para procurar uma causa única. Não para culpar o passado. Não para transformar todo sofrimento em enigma. Mas para que aquilo que hoje aparece apenas como ameaça possa, quando possível, transformar-se em algo que o sujeito consiga reconhecer, nomear e elaborar.

Porque talvez viver melhor não signifique conquistar uma existência sem angústia.

Talvez signifique não precisar passar a vida inteira fugindo daquilo que ela tenta nos fazer escutar.

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: Obras completas, volume 17: Inibição, sintoma e angústia, O futuro de uma ilusão e outros textos (1926–1929). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

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