Entre o alívio do sintoma e a escuta do sujeito: Psicanálise, psicofármacos e medicalização do sofrimento contemporâneo
Uma reflexão sobre a relação entre Psicanálise, psicofármacos e medicalização, considerando o alívio dos sintomas, a singularidade do sujeito e os limites de cada campo no cuidado do sofrimento psíquico.
ARTIGOS
Sérgio Rabelo
9/14/202615 min read


Entre o alívio do sintoma e a escuta do sujeito
Psicanálise, psicofármacos e medicalização do sofrimento contemporâneo
Introdução
O sofrimento psíquico ocupa hoje um espaço de grande visibilidade. Diagnósticos circulam nas redes sociais, termos antes restritos aos consultórios passaram para a linguagem cotidiana e os psicofármacos ampliaram significativamente as possibilidades de tratamento de diferentes condições clínicas.
Esse avanço não deve ser minimizado. Há situações em que a intervenção medicamentosa reduz sofrimento intenso, recupera o sono, diminui crises incapacitantes, favorece a reorganização do pensamento e permite que uma pessoa retome atividades e relações que haviam sido profundamente comprometidas.
Aliviar um sintoma significa necessariamente compreender o sofrimento de quem o apresenta?
É nesse ponto que a Psicanálise pode oferecer uma contribuição específica. Não para competir com a Psiquiatria, negar a ação dos medicamentos ou transformar toda manifestação psíquica em resultado exclusivo de conflitos inconscientes. Sua contribuição está em preservar uma pergunta que nenhum diagnóstico responde inteiramente:
Quem é o sujeito que vive esse sofrimento?
O sintoma não é apenas aquilo que aparece
Na medicina, identificar sintomas é indispensável. Eles ajudam a reconhecer condições clínicas, estabelecer hipóteses diagnósticas e orientar tratamentos. A Psicanálise acrescenta outra dimensão a essa investigação.
Desde Freud, o sintoma pode ser compreendido também em relação à história do sujeito, aos seus conflitos, às suas defesas e aos processos inconscientes que participam de sua formação.
Isso modifica a pergunta clínica. Não se trata apenas de perguntar “Qual é o sintoma?”, mas também: “Que lugar esse sintoma ocupa na história desta pessoa?”
Em seu texto sobre o recalque — publicado na edição utilizada neste trabalho sob o título A repressão — Freud mostra que aquilo que é afastado da consciência não simplesmente desaparece. Pode continuar produzindo efeitos e encontrar outras formas de expressão. O sintoma pode constituir uma dessas formações.
Isso não significa que ele seja benéfico ou que deva ser preservado. Um sintoma pode comprometer profundamente a vida: impedir alguém de trabalhar, dormir, relacionar-se, sair de casa ou realizar atividades elementares. Reconhecer que existe uma dimensão subjetiva no sintoma não significa romantizar o sofrimento. Significa apenas admitir que eliminar uma manifestação e compreender sua função são operações diferentes.
O alívio também importa
Essa distinção é fundamental porque determinados discursos sobre Psicanálise cometeram, historicamente, o erro de tratar a medicação quase como adversária da escuta. Essa oposição é desnecessária.
Psicofármacos podem produzir benefícios clínicos reais. Dependendo da condição e da avaliação médica, podem reduzir sintomas suficientemente graves para impedir o funcionamento cotidiano. Em algumas situações, é justamente depois dessa redução que a pessoa recupera condições para falar, pensar e participar de um processo psicoterapêutico.
A literatura contemporânea oferece exemplos de complementaridade entre tratamentos. Uma metanálise de Cuijpers e colaboradores envolvendo 101 estudos e 11.910 adultos com depressão encontrou, no conjunto analisado, maior resposta para tratamentos combinados do que para psicoterapia ou farmacoterapia isoladamente. Esse resultado não constitui evidência específica para a Psicanálise e não pode ser generalizado para todos os transtornos, mas ajuda a desmontar uma falsa alternativa: tratamento farmacológico e tratamento pela palavra não precisam ser adversários.
A pergunta, portanto, não precisa ser “medicar ou escutar?”. Pode ser: “de que formas de cuidado este sujeito necessita?”
Quando o sintoma melhora, o sujeito desaparece?
Imagine alguém que atravessa um período de sofrimento depressivo intenso. O sono está comprometido, a capacidade de concentração diminuiu e atividades anteriormente possíveis tornaram-se extremamente difíceis. Depois de avaliação médica e tratamento adequado, os sintomas começam a diminuir. A pessoa volta a dormir, retoma o trabalho e recupera energia.
Essa melhora é real.
Seria inadequado afirmar que se trata apenas de algo “superficial” porque foi favorecida por medicamentos. Mas talvez permaneçam outras questões: por que determinadas relações se repetem? Como essa pessoa responde às perdas? Que exigências dirige contra si mesma? Que conflitos atravessam suas escolhas? Que lugar ocupa o reconhecimento dos outros em sua vida?
O medicamento não precisa responder a essas perguntas porque essa não é necessariamente sua função. Da mesma maneira, a Psicanálise não precisa produzir os efeitos biológicos de um medicamento porque esse não é seu campo. O conflito começa quando uma modalidade de tratamento pretende ocupar todo o espaço de compreensão do sujeito.
Um diagnóstico pode ajudar sem definir uma pessoa
Receber um diagnóstico pode representar enorme alívio. Uma pessoa que passou anos sem compreender aquilo que acontecia pode finalmente encontrar uma explicação clínica, acessar tratamento e perceber que determinadas dificuldades são reconhecidas e estudadas. Portanto, criticar o uso indiscriminado de categorias diagnósticas não significa negar sua importância.
A questão surge quando acontece uma passagem quase imperceptível: “Eu tenho determinado diagnóstico” transforma-se em “Eu sou esse diagnóstico”. Nesse momento, uma categoria criada para descrever aspectos de uma condição clínica começa a funcionar como explicação total da identidade.
A Psicanálise não precisa retirar o diagnóstico dessa pessoa. Pode fazer algo diferente: perguntar o que esse diagnóstico passou a significar para ela. Para alguém, pode representar reconhecimento; para outro, estigma; para outro, explicação; para outro, sentença; para outro, pertencimento; para outro, finalmente a possibilidade de pedir ajuda. A mesma categoria clínica pode ocupar lugares subjetivos profundamente diferentes.
O medicamento também possui um significado
Um psicofármaco é uma substância que produz efeitos farmacológicos concretos. Mas, para quem o utiliza, ele também participa de uma experiência. Tomar um medicamento todos os dias pode representar proteção, dependência, esperança, medo, prova de doença ou possibilidade de recuperar autonomia.
Estudos qualitativos mostram que a experiência com psicotrópicos envolve também questões de corpo, identidade, estigma, autonomia e explicações sobre o próprio sofrimento. Isso não altera a farmacologia do medicamento, mas significa que tomar um medicamento não é uma experiência subjetivamente neutra.
A Psicanálise pode escutar essa dimensão. O que ela não deve fazer é ultrapassar sua competência. Um analista não deve prescrever medicamentos, modificar doses, estabelecer esquemas de retirada ou orientar alguém a interromper um tratamento prescrito. Efeitos adversos não devem ser automaticamente convertidos em interpretações psicológicas. Questões de eficácia, segurança, dose e efeitos farmacológicos pertencem à avaliação dos profissionais habilitados para isso.
Interdisciplinaridade não significa confusão de funções. Campos diferentes podem dialogar porque reconhecem aquilo que compete a cada um.
Quando tratar começa a significar medicalizar?
Medicalização não é sinônimo de medicação. A distinção é fundamental. Peter Conrad utiliza o conceito para examinar processos pelos quais condições e problemas humanos passam progressivamente a ser definidos e tratados predominantemente em termos médicos.
Uma pessoa utilizar um medicamento de que necessita não constitui, por si só, medicalização. Da mesma forma, receber um diagnóstico adequadamente estabelecido não significa automaticamente ter sido vítima de um processo de medicalização. O fenômeno é mais amplo: aparece quando experiências anteriormente compreendidas também através de categorias sociais, existenciais, relacionais ou culturais passam a ser interpretadas prioritariamente pela linguagem da doença, do transtorno ou da disfunção.
Durante muito tempo, inúmeras pessoas sofreram sem diagnóstico, sem tratamento e frequentemente sob forte estigma. Ampliar o reconhecimento do sofrimento psíquico representou um avanço. Mas existe um movimento inverso que também merece atenção: quando toda experiência dolorosa começa a exigir imediatamente um diagnóstico, corremos o risco de transformar sofrimento em sinônimo de doença. E sofrimento e doença não são exatamente a mesma coisa.
Sofrer não significa necessariamente adoecer
Perdas, frustrações, conflitos, medo, tristeza, insegurança e angústia fazem parte da experiência humana. Isso não significa que sejam sempre leves nem que nunca possam participar de uma condição clínica. Significa apenas que a presença do sofrimento, por si só, não estabelece automaticamente a existência de um transtorno mental.
A linguagem da saúde mental circula hoje muito além dos consultórios. Isso pode reduzir estigmas, facilitar o reconhecimento de situações graves e estimular a procura por ajuda. O problema começa quando essa linguagem deixa de ajudar a compreender a experiência e passa a classificá-la precipitadamente.
O trabalho acadêmico que deu origem a este artigo dialoga com pesquisas que descrevem a chamada psiquiatrização da sociedade: a expansão de conhecimentos, práticas e categorias psiquiátricas para um número crescente de pessoas e áreas da vida social. Esse processo é ambivalente. Pode ampliar reconhecimento e acesso ao cuidado, mas também pode favorecer sobrediagnóstico, sobretratamento e respostas individualizadas para problemas que possuem dimensões mais amplas.
Existem dois erros possíveis: patologizar aquilo que não necessariamente constitui doença e utilizar a crítica à patologização para minimizar um sofrimento que efetivamente necessita de cuidado. Entre esses extremos existe algo mais difícil: escutar.
Quando um problema social se transforma apenas em problema individual
Imagine alguém trabalhando sob pressão constante, submetido a jornadas excessivas, insegurança profissional, conflitos institucionais e ausência de condições adequadas de descanso. Essa pessoa começa a apresentar insônia, ansiedade, irritabilidade e exaustão. Ela pode necessitar de tratamento. Mas existe uma diferença entre cuidar do sujeito que sofre e concluir que toda a explicação para aquele sofrimento está dentro dele.
O mesmo pode ocorrer diante de desemprego, precariedade econômica, violência, discriminação, isolamento social ou insegurança. Isso não significa afirmar que todo sofrimento psíquico seja produzido pela sociedade. Seria apenas substituir um reducionismo por outro.
Um sujeito pode apresentar conflitos inconscientes e simultaneamente estar submetido a condições objetivamente difíceis. Pode existir vulnerabilidade psíquica e precariedade social. Pode haver uma condição psiquiátrica e, ao mesmo tempo, uma organização de trabalho adoecedora. Uma dimensão não precisa anular a outra.
A promessa de uma vida sem mal-estar
Quanto maiores são nossas possibilidades técnicas de modificar estados emocionais, mais facilmente pode surgir a expectativa de que todo estado desagradável deveria ser eliminado. É compreensível desejar alívio. Ninguém precisa transformar sofrimento em virtude. Mas existe uma diferença entre tratar um sofrimento incapacitante e estabelecer como ideal uma existência sem tristeza, frustração, medo, conflito ou angústia.
Em O mal-estar na civilização, Freud coloca a questão em outra perspectiva. A vida humana envolve inevitavelmente limites: não podemos realizar todos os desejos, impedir todas as perdas, controlar completamente os outros, garantir que seremos sempre amados ou eliminar a incerteza. Viver com outras pessoas exige renúncias, negociações e limites.
Isso não significa que todo sofrimento deva ser simplesmente suportado. Significa que nem todo mal-estar pode ser tratado como defeito a ser corrigido. Há sofrimentos que pedem tratamento, situações que exigem mudanças concretas e experiências dolorosas que precisam ser atravessadas e elaboradas.
O risco dos dois reducionismos
A relação entre Psicanálise e psicofarmacologia não deveria ser organizada como uma guerra entre duas explicações. De um lado, existe o risco de um reducionismo biologicista, no qual história, relações, conflitos, condições sociais e significações subjetivas perdem importância diante de uma explicação predominantemente neurobiológica.
Do outro lado, existe um reducionismo psicologizante, no qual manifestações potencialmente graves podem ser interpretadas apenas como expressões simbólicas ou conflitos inconscientes, negligenciando condições médicas, alterações biológicas, riscos clínicos ou a necessidade de intervenção psiquiátrica.
O sujeito tem corpo, mas não é apenas corpo. Possui uma história, mas não é determinado exclusivamente por ela. Vive em uma sociedade, mas não é simples produto das condições sociais. Possui processos inconscientes, mas a Psicanálise não contém uma explicação total de sua existência.
A Psicanálise não precisa do sofrimento para existir
Se um medicamento reduz significativamente determinado sintoma, isso significa que já não existe espaço para o trabalho psicanalítico? Não necessariamente. Seria estranho defender que a análise depende da manutenção do sofrimento para continuar existindo.
Se uma pessoa deixa de ter crises incapacitantes, volta a dormir ou recupera alguma estabilidade, a Psicanálise não precisa lamentar essa melhora para preservar seu objeto. Em determinadas circunstâncias, justamente porque o sintoma deixou de ocupar quase toda a vida psíquica, outras questões podem finalmente aparecer: relações, escolhas, perdas, culpa, desejo e repetições.
A melhora pode não encerrar a escuta. Pode criar condições para que outra escuta comece.
Interdisciplinaridade não significa que todos façam tudo
Trabalhar de maneira interdisciplinar não significa apagar as fronteiras profissionais. Um psiquiatra pode formular determinadas perguntas. Um psicólogo pode formular outras. Um psicanalista pode escutar dimensões específicas da experiência. Outros profissionais podem participar quando suas competências forem necessárias.
O objetivo não precisa ser produzir uma única explicação capaz de absorver todas as outras. A interdisciplinaridade funciona justamente quando cada campo reconhece o que pode fazer e onde termina sua competência. Na relação com os psicofármacos, essa fronteira é particularmente clara.
O psicanalista pode escutar o que significa, para aquele sujeito, tomar uma medicação, observar mudanças em seu discurso e acompanhar fantasias, medos ou expectativas relacionados ao tratamento. Mas isso não lhe concede autoridade farmacológica. Da mesma maneira, uma intervenção sobre mecanismos biológicos não responde automaticamente pelo sentido que determinada experiência possui na história de uma pessoa.
Entre o alívio e a elaboração
Alívio e elaboração não são sinônimos. Mas também não são inimigos. Há momentos em que aliviar é urgente. Há situações em que alguém está sofrendo de tal maneira que recuperar minimamente sua capacidade de dormir, pensar, trabalhar ou cuidar de si precisa ocupar o primeiro plano.
E há questões cuja elaboração exige tempo: tempo para falar, associar, reconhecer repetições e construir perguntas que talvez nem fossem possíveis enquanto toda a experiência estava dominada pelo sofrimento. A clínica pode comportar essas duas temporalidades: a urgência do alívio e o tempo da elaboração. Uma não precisa invalidar a outra.
Preservar o sujeito
A questão central não está em decidir qual campo possui a explicação definitiva para o sofrimento psíquico. Talvez o problema comece justamente quando qualquer campo reivindica essa posição.
Preservar o sujeito significa reconhecer que uma pessoa pode possuir um diagnóstico sem ser reduzida a ele; utilizar medicamentos sem ser definida por eles; apresentar sintomas relacionados a processos biológicos e, simultaneamente, possuir uma história singular; viver conflitos inconscientes e, ao mesmo tempo, estar submetida a circunstâncias sociais concretas.
Essa posição exige também que a própria Psicanálise reconheça seus limites. Defender a singularidade do sujeito não significa afirmar que a Psicanálise possua acesso privilegiado à verdade total de alguém. Sofrimento psíquico pode envolver simultaneamente condições biológicas, história subjetiva, relações interpessoais e circunstâncias sociais.
O diagnóstico responde a algumas perguntas — não a todas
Um diagnóstico pode ser necessário. Pode orientar decisões clínicas, facilitar a comunicação entre profissionais, permitir acesso a tratamentos e finalmente dar nome a manifestações que produziram sofrimento durante anos. Nada disso precisa ser desqualificado.
Mas uma categoria diagnóstica não responde necessariamente por que essa experiência é vivida dessa maneira por esta pessoa, que lugar ocupa em sua história, como ela passou a se perceber depois do diagnóstico, o que teme perder ou o que se repete em seus vínculos.
O sujeito não precisa deixar de possuir determinado diagnóstico para ser escutado para além dele.
O medicamento também não precisa responder a tudo
Se ele cumpre adequadamente sua função terapêutica, isso já possui valor. Não precisamos exigir do medicamento aquilo que ele não se propõe a fazer. Se uma intervenção reduz crises, estabiliza determinado quadro, melhora o sono ou possibilita recuperação funcional, existe ali um benefício clínico que merece ser reconhecido.
Mas talvez permaneça uma história. Talvez permaneçam conflitos e perguntas. Talvez nada disso esteja presente. A Psicanálise não deveria decidir antecipadamente que existe sempre um significado oculto específico esperando para ser descoberto. Ela precisa escutar, porque singularidade significa justamente que não existe um dicionário universal capaz de traduzir automaticamente cada sintoma.
Escutar não é impedir o alívio
Existe uma falsa oposição que precisa ser abandonada: de um lado, estaria o profissional interessado em eliminar sintomas; do outro, aquele interessado em compreender o sujeito. Na prática clínica responsável, essa divisão pode ser muito menos rígida.
Uma pessoa em sofrimento intenso pode precisar de alívio, e o fato de esse alívio ocorrer não elimina necessariamente a possibilidade de elaboração posterior. Da mesma forma, compreender aspectos da própria história não significa que alguém deva permanecer sofrendo para preservar um suposto sentido do sintoma.
A finalidade da escuta não é manter o sujeito doente para que continue havendo algo a interpretar.
Nem todo sofrimento precisa desaparecer para que uma vida possa ser vivida
O avanço das possibilidades de tratamento constitui uma conquista. Mas uma sociedade que dispõe de mais instrumentos para tratar o sofrimento pode também desenvolver menor tolerância diante da existência de qualquer desconforto.
A tristeza precisa acabar rapidamente. A ansiedade precisa desaparecer. O luto precisa ter prazo. A insegurança precisa ser corrigida. A frustração parece sinal de que alguma coisa está funcionando mal. Mas uma vida psiquicamente saudável é necessariamente uma vida sem sofrimento?
Cuidar do sofrimento não é prometer eliminar da existência tudo aquilo que dói. Há dores que precisam de tratamento, situações que precisam ser modificadas, riscos que exigem intervenção e perdas, limites, frustrações e conflitos que talvez precisem encontrar um lugar na história do sujeito.
Quando a linguagem da saúde mental amplia — e quando reduz
A expansão contemporânea da linguagem da saúde mental pode ajudar alguém a reconhecer que precisa de ajuda, diminuir culpa, combater preconceitos e oferecer acesso a tratamentos antes inacessíveis. Mas essa mesma linguagem pode empobrecer a experiência quando toda diferença recebe imediatamente um rótulo e toda dor precisa ser transformada em patologia.
A questão não é abandonar diagnósticos, mas impedir que o diagnóstico encerre a pergunta. Não é rejeitar medicamentos, mas impedir que a prescrição seja confundida com uma explicação integral do sujeito. Não é negar a biologia, mas reconhecer que um cérebro não possui sozinho uma biografia. E também não é transformar a Psicanálise em explicação soberana.
Entre o alívio do sintoma e a escuta do sujeito
Talvez tenhamos construído uma oposição onde ela não precisa existir. O alívio do sintoma possui valor clínico próprio. Quando alguém sofre intensamente, aliviar esse sofrimento importa. A Psicanálise não precisa diminuir esse valor para justificar sua existência.
Ao mesmo tempo, a redução de uma manifestação clínica não significa necessariamente que todas as questões relacionadas àquela experiência tenham desaparecido. Tratamento medicamentoso e escuta psicanalítica podem participar do cuidado de maneira complementar, desde que suas diferentes funções sejam reconhecidas e seus limites profissionais preservados.
Há momentos em que a urgência é aliviar. Há momentos em que é possível elaborar. Há situações em que ambos acontecem simultaneamente. O desafio não consiste em decidir abstratamente qual abordagem deve vencer. Consiste em não perder de vista a pessoa que deveria estar no centro do cuidado.
Um diagnóstico pode dizer muito. Um medicamento pode fazer muito. Uma teoria pode explicar muito. Mas nenhum deles, isoladamente, esgota aquilo que um sujeito é.
Talvez seja exatamente aí que a escuta encontre seu lugar. Não contra o diagnóstico. Não contra o medicamento. Não contra a medicina. Mas diante de uma pergunta que permanece aberta mesmo quando o tratamento funciona:
Depois que o sintoma é aliviado, o que ainda precisa ser escutado?
Referências
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