Entre o que nos acontece e o que fazemos com isso
Uma reflexão sobre circunstância, liberdade, limites e responsabilidade, considerando o que não escolhemos na vida e a margem de ação que ainda permanece diante da própria história.
REFLEXÕES
Sérgio Rabelo
8/3/20264 min read


Entre o que nos acontece e o que fazemos com isso
Nem tudo o que acontece em nossa vida foi escolhido por nós. Não escolhemos onde nascer, muitas das condições em que crescemos, todas as pessoas que encontramos, as perdas que sofremos, as oportunidades que não tivemos ou os acontecimentos que interrompem nossos planos.
Há uma parte da existência que simplesmente nos acontece.
Mas, diante daquilo que me aconteceu, o que ainda posso fazer?
É nesse espaço — entre circunstância e escolha — que uma das questões mais antigas da Filosofia continua a nos acompanhar.
Não escolhemos o ponto de partida
Existe uma maneira sedutora de falar sobre liberdade: “Você pode ser o que quiser”, “Seu futuro depende apenas de você”, “Basta decidir”. Essas frases podem parecer motivadoras, mas descrevem mal a condição humana.
Não começamos todos do mesmo lugar. Existem diferenças econômicas, familiares, sociais, culturais, físicas e históricas que influenciam concretamente nossas possibilidades. Também existem acontecimentos imprevisíveis: doença, perda, acidente, crise econômica, fim de uma relação, mudança inesperada.
Dizer que somos responsáveis por nossas escolhas não significa afirmar que somos responsáveis por tudo aquilo que nos aconteceu.
Mas circunstância também não é destino absoluto
Depois de reconhecer o peso das circunstâncias, podemos cair no extremo contrário e concluir que somos apenas produto delas: minha história foi assim; fizeram isso comigo; nunca tive aquela oportunidade.
Tudo isso pode ser verdadeiro. A questão não está em negar a história, mas em perguntar se aquilo que nos aconteceu precisa determinar integralmente aquilo que ainda podemos fazer.
Existe uma diferença entre dizer “isso faz parte da minha história” e dizer “isso precisa decidir todo o restante dela”.
A margem que permanece
Talvez liberdade não seja possuir controle absoluto sobre a vida. Talvez seja algo mais limitado — e justamente por isso mais real.
Entre aquilo que desejamos e aquilo que efetivamente podemos fazer existe uma margem. Às vezes ampla, às vezes estreita, em determinadas situações quase mínima. É dentro dela que escolhemos.
Podemos não escolher uma perda, uma limitação ou uma injustiça. Isso não significa que toda dor precise transformar-se em lição. Nem toda perda nos torna melhores e nem todo sofrimento possui uma explicação edificante.
Mas, mesmo quando não escolhemos o que aconteceu, podemos pouco a pouco participar da maneira como isso será incorporado à nossa história.
Responsabilidade não é culpa
Responsabilidade e culpa não são sinônimos. Podemos não ser culpados por determinada situação e, ainda assim, chegar ao momento em que precisamos assumir alguma responsabilidade sobre aquilo que faremos com ela.
Uma pessoa pode ter sido profundamente ferida pela irresponsabilidade de outra. Seria injusto apagar a história e dizer que agora tudo depende dela. Não depende. Há um dano e consequências reais.
Mas até que ponto aquilo que alguém fez comigo continuará determinando aquilo que faço comigo?
Essa pergunta não transfere a culpa para quem sofreu. Procura recuperar alguma possibilidade de ação. Responsabilizar-se pela própria vida não significa declarar-se culpado pelo passado; significa não delegar inteiramente ao passado aquilo que ainda poderá acontecer.
Há coisas que não conseguimos mudar
Uma cultura obcecada por transformação pode produzir outra crueldade: a ideia de que todo limite deveria ser superado. Nem sempre.
Existem limites que precisam ser enfrentados, outros elaborados e alguns aceitos. Há portas que não se abrirão, decisões que não podem ser desfeitas, pessoas que não voltarão e versões de nossa vida que não acontecerão.
Aceitação, nesse caso, não é aprovação. Não significa dizer que aquilo foi justo nem gostar do que aconteceu. Significa reconhecer uma realidade que já não pode ser modificada para dirigir energia àquilo que ainda pode.
Às vezes, uma das formas mais difíceis de liberdade é parar de exigir do passado uma possibilidade que ele já não possui.
O passado explica, mas não precisa justificar tudo
Conhecer nossa história é importante. Entender de onde vieram determinados medos, comportamentos e formas de relação pode mudar profundamente a maneira como compreendemos a nós mesmos.
Mas a explicação pode transformar-se em justificativa permanente. Compreender a origem de uma maneira de reagir não significa que ela precise continuar indefinidamente.
A história explica muita coisa. Compreendê-la deveria ampliar nossa possibilidade de escolha, não necessariamente eliminá-la.
Não somos autores de tudo, mas participamos da continuação
Talvez uma boa imagem para pensar a existência seja a de uma narrativa que não começamos a escrever do zero. Quando chegamos, algumas páginas já estavam escritas: recebemos uma família, uma época, um corpo, uma língua, uma cultura e condições que não controlamos.
Outras pessoas continuam escrevendo acontecimentos em nossa história sem pedir autorização.
E, ainda assim, em algum momento também seguramos a caneta.
Não para apagar as páginas anteriores, nem para escrever qualquer coisa sem limites, mas para participar daquilo que ainda será escrito.
Talvez liberdade seja menos a possibilidade de escrever a história inteira e mais a possibilidade de não abandonar completamente a autoria das páginas que ainda restam.
Entre resignação e ilusão de controle
Há dois extremos igualmente problemáticos. O primeiro diz: “Minha vida depende inteiramente de mim.” O segundo: “Minha vida é apenas resultado daquilo que me aconteceu.”
O primeiro ignora circunstâncias. O segundo elimina agência. Uma compreensão mais humana da liberdade precisa permanecer entre os dois.
Não controlamos tudo, mas também não somos completamente passivos. Não escolhemos todas as condições, mas fazemos escolhas dentro delas. Não somos absolutamente livres, mas isso não significa que nenhuma liberdade exista.
Com a vida que efetivamente tenho, o que ainda é possível fazer?
Talvez seja esse o espaço mais concreto da responsabilidade: não assumir culpa por tudo, não fingir que circunstâncias não importam, não transformar sofrimento em mérito e não acreditar que vontade resolve qualquer limite; mas também não entregar inteiramente ao passado, às outras pessoas ou às circunstâncias o poder de determinar aquilo que ainda podemos nos tornar.
Entre aquilo que me aconteceu e aquilo que ainda posso fazer, qual é a margem de liberdade que permanece — e o que estou fazendo com ela?
Sérgio Rabelo - Psicanalista Cliníco
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