Halloween e Psicanálise: o que realmente nos assusta?

Uma reflexão psicanalítica sobre o Halloween, o conceito de inquietante em Freud, as máscaras, os medos e aquilo que nem sempre reconhecemos em nós mesmos.

ARTIGOS

Sérgio Rabelo

10/31/20268 min read

Halloween e Psicanálise: o que realmente nos assusta?

O inquietante em Freud, as máscaras que usamos e aquilo que permanece estranho em nós mesmos.

Por Sérgio Rabelo — Psicanalista Clínico

Introdução — Quando o medo encontra aquilo que nos é familiar

Todos os anos, no dia 31 de outubro, o Halloween traz para o espaço público imagens de fantasmas, máscaras, monstros, sombras e personagens que habitam o imaginário do medo. Aquilo que habitualmente procuramos evitar torna-se, por algumas horas, motivo de celebração, entretenimento e curiosidade.

Mas há uma questão interessante nessa relação com o assustador: por que determinadas imagens nos inquietam, mesmo quando sabemos que são fictícias? Por que um rosto familiar pode parecer estranho? Por que uma casa vazia, um reflexo no espelho ou uma figura aparentemente humana podem despertar uma sensação difícil de explicar?

Essas perguntas não exigem que transformemos o Halloween num fenómeno clínico. A celebração possui dimensões históricas, culturais, sociais e comerciais que não podem ser reduzidas a mecanismos psicológicos.

Entretanto, algumas das suas imagens permitem estabelecer um diálogo fecundo com a psicanálise, especialmente com o conceito de Das Unheimliche, desenvolvido por Sigmund Freud em 1919.

Talvez o que mais nos perturbe não seja sempre aquilo que está completamente fora de nós, mas a possibilidade de encontrar algo estranho justamente onde esperávamos reconhecer o familiar.

1. Freud e o inquietante: quando o conhecido deixa de parecer seguro

Em 1919, Freud publicou o ensaio Das Unheimliche, frequentemente traduzido para o português como O inquietante ou O estranho.

O texto investiga uma experiência particular: aquela em que algo desperta medo, desconforto ou estranheza não simplesmente por ser desconhecido, mas por manter uma relação perturbadora com aquilo que já nos era familiar.

Freud parte de uma investigação linguística do termo alemão heimlich, associado, entre outros sentidos, ao que é familiar, doméstico e íntimo. A palavra também pode referir-se ao que permanece oculto ou reservado. Essa ambivalência torna especialmente interessante o seu oposto, unheimlich.

O inquietante não corresponde, portanto, a qualquer experiência de medo. Há situações ameaçadoras que nos assustam sem produzir essa sensação particular de estranheza.

O que Freud procura compreender é por que determinadas experiências parecem revelar algo simultaneamente reconhecível e perturbador.

No desenvolvimento do ensaio, ele relaciona algumas manifestações do inquietante ao retorno de conteúdos recalcados e à reativação de antigas crenças que pareciam superadas.

Isso não significa que toda experiência assustadora resulte necessariamente do recalcamento. O próprio problema exige distinguir diferentes circunstâncias e reconhecer que os efeitos da ficção não são idênticos aos da experiência vivida.

O contributo fundamental dessa reflexão está em mostrar que a relação entre familiaridade e estranheza é mais complexa do que parece.

2. O espelho, o duplo e a inquietação diante da própria imagem

Imagine uma pessoa diante de um espelho antigo.

Ela reconhece o próprio rosto, os próprios movimentos e os traços que lhe são familiares. Contudo, uma alteração inesperada na imagem pode produzir desconforto: um reflexo que parece atrasado, uma expressão que não corresponde ao esperado ou a impressão de que existe outra presença naquele espaço.

O espelho é um recurso recorrente nas narrativas de terror porque trabalha com uma experiência quotidiana de reconhecimento.

É justamente essa familiaridade que torna possível a sua transformação em estranheza.

No ensaio de 1919, Freud dedica atenção à figura do duplo, presente em diferentes tradições literárias e culturais. A existência de uma imagem semelhante a nós, mas que parece possuir autonomia, pode perturbar a segurança com que reconhecemos a nossa identidade.

A figura do duplo também remete à complexidade da relação que estabelecemos connosco próprios.

Na experiência humana, nem sempre conseguimos explicar integralmente aquilo que sentimos, desejamos ou fazemos. Podemos reconhecer determinadas atitudes como nossas e, ainda assim, surpreender-nos com elas.

Isso não autoriza concluir que toda surpresa diante de si mesmo seja uma manifestação do inquietante freudiano. Permite, porém, construir uma aproximação reflexiva entre a experiência estética do estranho e os limites do autoconhecimento.

O espelho, nesse sentido, deixa de ser apenas um objeto das histórias de terror e torna-se uma metáfora possível para uma pergunta mais ampla: até que ponto nos conhecemos?

3. As máscaras que usamos e aquilo que preferimos não mostrar

Durante o Halloween, as máscaras permitem assumir temporariamente outras aparências.

Alguém pode representar uma figura ameaçadora, uma personagem sobrenatural ou uma identidade inteiramente diferente da habitual. A transformação é geralmente reconhecida como brincadeira, expressão artística ou participação numa prática cultural.

Fora dessa celebração, a questão das aparências continua presente, embora de maneiras muito diferentes.

Na vida quotidiana, selecionamos aquilo que mostramos aos outros. Adaptamos a linguagem, os comportamentos e as formas de expressão às relações e aos contextos sociais.

Esse processo não é, por si só, sinal de falsidade ou de sofrimento psíquico. A convivência humana exige diferentes modos de apresentação de si.

Contudo, a reflexão psicanalítica convida a considerar que nem tudo aquilo que vivemos internamente está imediatamente disponível à consciência.

Podemos experimentar sentimentos contraditórios, desejar coisas que entram em conflito com os nossos valores ou reagir de maneiras que inicialmente não compreendemos.

A metáfora da máscara torna-se interessante quando nos leva a perguntar não apenas o que escondemos dos outros, mas também aquilo que temos dificuldade em reconhecer em nós.

É necessário, porém, preservar uma distinção: usar uma máscara numa celebração não demonstra a existência de conflitos inconscientes específicos. Uma imagem cultural pode estimular uma reflexão, mas não constitui prova de uma interpretação clínica.

A psicanálise exige atenção à singularidade de cada sujeito, à sua história e às associações que produz. Não há um significado inconsciente universal para cada fantasia, personagem ou escolha estética.

4. Por que sentimos medo de histórias que sabemos não serem reais?

Há um paradoxo aparente no interesse humano pelas narrativas de terror.

Procuramos voluntariamente filmes, livros e experiências que prometem provocar sustos, tensão e desconforto. Sabemos que muitas dessas situações são fictícias e, ainda assim, reagimos emocionalmente a elas.

A ficção permite construir uma relação particular com o medo.

O espectador pode experimentar a tensão de uma ameaça sem estar necessariamente exposto ao perigo representado. A narrativa estabelece expectativas, suspende certezas e organiza a experiência emocional dentro de um enquadramento reconhecido como imaginário.

Isso não significa que todos encontrem prazer no terror, nem que exista uma única explicação psicológica para esse interesse.

As motivações podem envolver curiosidade, entretenimento, identificação com personagens, procura de emoções intensas, experiências sociais partilhadas e muitos outros fatores.

A psicanálise acrescenta a possibilidade de investigar como determinadas narrativas mobilizam fantasias, conflitos e formas particulares de relação com o desconhecido.

No caso do inquietante, Freud observa que a literatura dispõe de recursos próprios para produzir efeitos que não se manifestam necessariamente da mesma maneira na vida real.

Uma história pode tornar perturbador um objeto comum, explorar a repetição de acontecimentos improváveis ou fazer vacilar a fronteira entre o vivo e o inanimado.

Assim, o medo provocado pela ficção não precisa ser entendido como simples irracionalidade. Pode constituir uma experiência estética complexa, na qual imaginação, expectativa e emoção se encontram.

5. O medo daquilo que não controlamos

Parte da experiência humana envolve conviver com limites.

Não controlamos integralmente o futuro, o comportamento das outras pessoas, as transformações do corpo ou todas as circunstâncias que atravessam a nossa existência.

A morte, a perda, a separação e a incerteza aparecem frequentemente nas narrativas de terror porque também ocupam um lugar importante na experiência humana.

Freud inclui a morte, os fantasmas e o retorno dos mortos entre os temas que podem participar da experiência do inquietante.

Contudo, seria precipitado afirmar que todos os medos são, no fundo, manifestações do medo da morte.

O medo possui diferentes origens e funções. Pode responder a perigos concretos, experiências anteriores, expectativas, conflitos internos ou circunstâncias sociais.

A reflexão psicanalítica não substitui essas distinções por uma explicação única.

O que ela pode oferecer é uma escuta das formas singulares pelas quais cada pessoa atribui significado ao que a ameaça, inquieta ou desestabiliza.

Por vezes, o sofrimento não está apenas naquilo que acontece, mas na dificuldade de compreender por que determinada experiência nos afeta de maneira tão intensa.

E essa pergunta não deve ser respondida apressadamente.

6. Aquilo que desconhecemos em nós

Existe uma diferença importante entre reconhecer que temos sentimentos contraditórios e compreender como esses sentimentos participam da nossa história.

Uma pessoa pode desejar proximidade e, simultaneamente, recear a intimidade. Pode procurar reconhecimento e sentir desconforto quando se torna o centro das atenções. Pode afirmar que superou determinada experiência e perceber que algumas situações ainda despertam reações inesperadas.

Esses exemplos não constituem diagnósticos nem permitem identificar automaticamente mecanismos inconscientes.

Servem apenas para ilustrar que a experiência subjetiva nem sempre é inteiramente transparente para quem a vive.

A psicanálise parte, entre outros pressupostos, do reconhecimento de que a vida psíquica não se reduz ao que conseguimos explicar conscientemente sobre nós mesmos.

Isso não significa que exista um significado oculto predeterminado por trás de cada comportamento.

O trabalho de compreensão exige tempo, contexto, associações e disposição para questionar interpretações que inicialmente parecem evidentes.

Nesse processo, aquilo que parecia estranho pode adquirir novos sentidos. E aquilo que julgávamos compreender pode revelar uma complexidade anteriormente ignorada.

O autoconhecimento, portanto, não consiste em eliminar todas as contradições, mas em desenvolver uma relação menos simplificadora com a própria experiência.

7. O Halloween termina, mas as perguntas permanecem

Quando a celebração termina, as fantasias são guardadas, as máscaras retiradas e os cenários assustadores deixam de ocupar o espaço quotidiano.

Mas as questões que essas imagens podem suscitar não desaparecem necessariamente com elas.

O que nos causa estranheza? Por que determinadas experiências nos perturbam mais do que outras? O que fazemos quando encontramos sentimentos que não correspondem à imagem que construímos de nós mesmos?

A contribuição de Freud não está em oferecer uma explicação universal para o Halloween. O seu ensaio de 1919 foi escrito para investigar o inquietante, particularmente nas suas relações com a linguagem, a literatura, a fantasia e determinados processos psíquicos.

A aproximação com o Halloween é uma leitura contemporânea possível, não uma teoria freudiana específica sobre essa celebração.

Tal distinção é fundamental para preservar o rigor da reflexão.

O Halloween pode ser apenas uma ocasião de diversão, convívio ou expressão cultural. Não precisamos atribuir-lhe um significado psicológico profundo para reconhecer a legitimidade dessas experiências.

Mas também podemos aproveitar as suas imagens como ponto de partida para pensar uma questão que ultrapassa qualquer data comemorativa.

Talvez a pergunta mais inquietante não seja apenas por que temos medo do que está lá fora, mas o que acontece quando encontramos algo de estranho em nós mesmos.

E talvez seja precisamente nesse encontro, quando deixamos de procurar respostas demasiado rápidas, que uma reflexão mais profunda sobre a nossa própria experiência se torna possível.

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. Das Unheimliche. Imago: Zeitschrift für Anwendung der Psychoanalyse auf die Geisteswissenschaften, v. 5, n.º 5–6, p. 297–324, 1919.

FREUD, Sigmund. The “Uncanny”. In: STRACHEY, James (ed. e trad.). The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. Vol. XVII (1917–1919). London: The Hogarth Press, 1955, p. 217–256.

RUERS, Jamie. The Uncanny. Freud Museum London, 18 de setembro de 2019. Disponível em: https://www.freud.org.uk/2019/09/18/the-uncanny/

CAMARGO, Selma de Abreu; FERREIRA, Nadiá Paulo. O estranho na obra de Sigmund Freud e no ensino de Jacques Lacan. Trivium: Estudos Interdisciplinares, v. 12, n.º 1, 2020. DOI: https://doi.org/10.18379/2176-4891.2020v1p.81

Sérgio Rabelo
Psicanalista Clínico
sergiorabelo.com