Quando a fé não alcança o próximo

Uma reflexão sobre fé, amor a Deus e a maneira como encontramos o outro, considerando dignidade, limites, escuta e os efeitos concretos da experiência religiosa nas relações humanas.

REFLEXÕES

Sérgio Rabelo

7/27/20264 min read

Sérgio Rabelo em ambiente de estudo, ilustrando a reflexão “Quando a fé não alcança o próximo”.
Sérgio Rabelo em ambiente de estudo, ilustrando a reflexão “Quando a fé não alcança o próximo”.

Quando a fé não alcança o próximo

É possível falar de amor a Deus e, ao mesmo tempo, construir relações marcadas pela indiferença, pela dureza e pela incapacidade de reconhecer o outro?

A pergunta toca numa separação que fazemos com relativa facilidade: de um lado, nossa relação com Deus; de outro, nossa maneira de tratar as pessoas. Como se fossem dimensões independentes.

Podemos participar de uma comunidade religiosa, conhecer as Escrituras, cultivar práticas de oração, defender convicções teológicas e expressar publicamente nossa fé. Tudo isso pode possuir valor genuíno.

Mas o que essa fé produz quando encontra outra pessoa?

Dois mandamentos que não deveriam ser separados

Em Mateus 22:37-40, ao responder sobre o maior mandamento, Jesus reúne o amor a Deus — com todo o coração, alma e entendimento — e o amor ao próximo como a si mesmo. O texto conclui que desses dois mandamentos dependem a Lei e os Profetas.

Isso produz uma consequência difícil de ignorar. A fé cristã não pode ser examinada apenas pela intensidade daquilo que alguém afirma sentir em relação a Deus. Ela precisa ser observada também na maneira como essa pessoa existe diante do outro.

É relativamente simples amar no campo das ideias. Mais difícil é lidar com aquele que discorda, decepciona, não corresponde às nossas expectativas, possui uma história que não compreendemos ou não pode nos oferecer nada em troca.

É justamente aí que a linguagem religiosa encontra a realidade das relações humanas.

Quando a espiritualidade termina na porta do templo

Existe uma forma de experiência religiosa que pode tornar-se intensa dentro do espaço de culto e quase irreconhecível fora dele. A pessoa se emociona, ora, canta, conhece a linguagem da fé, defende doutrinas e participa da comunidade, mas pode continuar incapaz de escutar, pedir perdão, reconhecer a dor que provocou ou tratar com dignidade alguém que considera inferior.

A questão não é desqualificar a experiência espiritual. É perguntar até onde ela alcança.

A fé que sobe até Deus, mas não alcança o próximo, precisa ser examinada.

Não porque o relacionamento com Deus possa ser reduzido à ética, mas porque, no cristianismo, o amor a Deus não autoriza a indiferença diante do ser humano.

O próximo nem sempre é conveniente

Quando ouvimos a expressão “amar o próximo”, podemos imaginar pessoas com quem já possuímos afinidade: família, amigos, pessoas da mesma comunidade ou gente que pensa como nós. A dificuldade começa quando o outro permanece realmente outro.

Amar não significa concordar com tudo, eliminar convicções, abandonar critérios éticos ou permanecer passivamente diante de abuso, violência ou injustiça. Amar não é tornar-se incapaz de estabelecer limites.

Mas existe uma diferença entre discordar de alguém e negar sua dignidade; entre estabelecer um limite e humilhar; entre sustentar uma convicção e utilizá-la como autorização para desprezar.

É possível defender aquilo em que acreditamos sem transformar o outro em inimigo.

A religião também pode proteger o ego

Uma das tentações mais discretas da experiência religiosa é utilizar a própria fé para construir uma posição de superioridade: eu sei, o outro não sabe; eu encontrei a verdade, o outro está perdido; eu estou do lado certo.

Quando isso acontece, a fé pode tornar-se instrumento de confirmação do próprio ego. A pessoa já não se aproxima do outro para encontrá-lo, mas apenas para corrigi-lo. Não escuta sua história; classifica. Não procura compreender; julga antes.

Isso é particularmente perigoso porque pode acontecer utilizando palavras religiosas perfeitamente reconhecíveis. Nem toda linguagem sobre Deus revela necessariamente uma relação transformada com Deus.

O outro não é um projeto

Há uma forma de relação em que enxergamos as pessoas apenas a partir daquilo que gostaríamos que elas se tornassem: o filho que deveria mudar, o cônjuge que deveria corresponder, o membro da igreja que deveria comportar-se de determinada maneira, a pessoa que deveria acreditar como acreditamos.

Então deixamos de encontrar alguém e começamos a encontrar um projeto.

Podemos aconselhar, ensinar, discordar, confrontar quando necessário e estabelecer limites. Mas existe algo anterior: reconhecer que diante de nós existe alguém cuja dignidade não depende de corresponder às nossas expectativas.

Amar o próximo não significa amar a versão dele que gostaríamos de produzir.

Significa encontrar uma pessoa real.

A pergunta não é apenas “no que acredito?”

A fé frequentemente é examinada pelo conteúdo das crenças, e isso importa. O cristianismo possui afirmações, doutrinas, tradições e interpretações que não podem ser dissolvidas numa ideia genérica de bondade.

Mas existe outra pergunta igualmente necessária: que espécie de pessoa minhas crenças estão ajudando a formar?

Estou me tornando mais capaz de ouvir, mais responsável pelas minhas palavras, mais disposto a reconhecer meus próprios erros e mais capaz de enxergar dignidade em quem não pertence ao meu grupo? Ou minha experiência religiosa está me tornando progressivamente mais convencido da minha superioridade?

Entre Deus e o próximo

O próximo possui rosto, história, limites, contradições e necessidades. É nessa concretude que o amor deixa de ser conceito.

Podemos falar sobre compaixão durante horas, mas ela se torna real quando alguém precisa ser escutado. Podemos defender o perdão, mas ele se torna difícil quando somos feridos. Podemos falar sobre graça, mas descobrimos o peso dessa palavra quando precisamos oferecê-la a alguém que julgamos não merecê-la.

É relativamente fácil amar a humanidade como ideia. Difícil é amar pessoas.

A fé cristã possui doutrina, culto, oração, comunidade e experiência espiritual. Mas ela também precisa adquirir forma na maneira como olhamos, ouvimos, falamos, perdoamos, estabelecemos limites, exercemos autoridade e reconhecemos a dignidade do outro.

O que acontece com as pessoas quando a fé que digo possuir passa por mim e chega até elas?

Se aquilo que chamamos de fé nunca alcança o próximo, talvez ainda precisemos perguntar o que, afinal, estamos chamando de fé.

Referência

BÍBLIA. Mateus 22:34-40. Sociedade Bíblica do Brasil. Texto bíblico consultado em edição eletrônica da SBB (NTLH).