Quando estar consigo mesmo deixa de ser um conflito
Uma reflexão sobre autoestima, autoaceitação, comparação e as exigências internas que atravessam a relação que construímos conosco.
REFLEXÕES
Sérgio Rabelo
8/10/20264 min read


Quando estar consigo mesmo deixa de ser um conflito
Existe uma diferença entre querer transformar alguma coisa em nós e viver permanentemente em conflito com aquilo que somos. Quase todos identificamos características que gostaríamos de modificar, capacidades que desejamos desenvolver e escolhas que faríamos de outra maneira. Isso faz parte da vida.
O problema começa quando a transformação deixa de nascer do desejo de crescer e passa a ser alimentada pela sensação de que só teremos valor quando finalmente nos tornarmos outra pessoa.
“Eu me aceitarei quando...”
Quando emagrecer. Quando tiver sucesso. Quando conseguir determinado relacionamento. Quando ganhar mais. Quando deixar de sentir determinada insegurança. Quando conseguir corresponder àquilo que esperam de mim.
Assim podemos passar anos vivendo numa espécie de sala de espera de nós mesmos.
A pessoa que sou e a pessoa que acredito que deveria ser
Desde muito cedo construímos imagens sobre aquilo que significa ser alguém digno de amor, admiração e reconhecimento. Essas imagens são formadas nas relações familiares, nas experiências da infância, na escola, na religião, na cultura, nos grupos aos quais pertencemos e, hoje, também no contato permanente com vidas cuidadosamente apresentadas nas redes sociais.
Pouco a pouco, formamos uma representação da pessoa que deveríamos ser: mais segura, produtiva, admirada, disciplinada, bem-sucedida, espiritual ou feliz.
O problema não está em possuir ideais. Eles podem orientar o crescimento. O problema aparece quando a distância entre aquilo que somos e aquilo que acreditamos que deveríamos ser deixa de funcionar como possibilidade de desenvolvimento e passa a funcionar como acusação.
Existe uma diferença entre pensar “há algo em mim que desejo transformar” e concluir “há algo errado comigo porque ainda não sou aquilo que deveria ser”.
Autoaceitação não é desistência
Aceitar-se não significa considerar tudo em nós bom, saudável ou imutável. Podemos reconhecer comportamentos que precisam mudar, assumir erros, perceber características que prejudicam nossas relações, buscar amadurecimento e pedir ajuda.
A diferença está no lugar de onde a transformação começa.
Uma coisa é dizer: “Preciso tornar-me outra pessoa para finalmente poder me aceitar.” Outra é reconhecer: “Eu sou quem sou neste momento, embora ainda possa me transformar.”
Na primeira formulação, a mudança é condição para que eu possa existir em paz comigo. Na segunda, a mudança nasce do reconhecimento da realidade. Talvez nenhuma transformação consistente possa começar sem algum contato com aquilo que realmente somos.
O tribunal que carregamos dentro de nós
Muitas pessoas vivem diante de um tribunal que ninguém mais consegue enxergar. Há uma voz interna avaliando continuamente: você deveria ter feito melhor; deveria estar mais longe; deveria ser mais forte; não deveria sentir isso; não poderia ter errado; olhe onde os outros chegaram.
Nem sempre percebemos de onde vêm essas exigências. Algumas foram pronunciadas por pessoas importantes. Outras foram apenas percebidas. Algumas pertencem ao ambiente em que crescemos. Com o tempo, aquilo que inicialmente vinha de fora pode passar a falar de dentro.
De quem é a voz com a qual tenho falado comigo mesmo?
Nem tudo aquilo que pensamos sobre nós nasceu verdadeiramente de nós.
Comparar bastidores com vitrines
Temos acesso permanente àquilo que os outros escolhem mostrar: conquistas, viagens, corpos, relacionamentos, carreiras e celebrações. Mas convivemos conosco de outra maneira.
Conhecemos nossas dúvidas, fracassos, contradições, medos e as partes da nossa história que jamais seriam publicadas.
A comparação torna-se inevitavelmente desigual quando colocamos a totalidade da nossa experiência diante da seleção da experiência alheia. Não significa que tudo aquilo que vemos seja falso. Significa apenas que estamos comparando coisas diferentes.
Conhecemos nossos bastidores. Dos outros, frequentemente recebemos a vitrine.
Talvez autoestima não seja admirar-se o tempo inteiro
Ninguém precisa olhar para si permanentemente com admiração. Haverá dias em que não gostaremos do nosso corpo, momentos em que estaremos decepcionados com nossas escolhas e períodos em que nossa confiança diminuirá.
Talvez uma relação mais madura consigo mesmo não seja aquela em que a pessoa consegue admirar tudo o que é, mas aquela em que não precisa transformar cada imperfeição numa razão para rejeitar a própria existência.
Posso não gostar de alguma coisa em mim sem concluir que não tenho valor. Posso reconhecer um fracasso sem transformar minha história inteira em fracasso. Posso admitir que errei sem fazer do erro minha identidade.
Habitar a própria vida
Existe uma consequência silenciosa de viver sempre esperando tornar-se outra pessoa: o presente começa a parecer apenas um intervalo. Quando eu conseguir aquilo, começarei a viver. Quando resolver esse problema, ficarei bem. Quando alcançar determinado nível, sentirei que sou suficiente.
Mas o futuro, quando chega, transforma-se em presente. Se aprendemos a rejeitar continuamente aquilo que somos no presente, podemos simplesmente transferir a insatisfação para a próxima conquista.
Aceitar-se é conseguir habitar o ponto da vida em que estamos sem precisar fingir que ele é definitivo. Há coisas que construí, coisas que perdi, escolhas das quais me orgulho e outras que faria de maneira diferente. Há limites que posso superar e limites que talvez precise aprender a reconhecer.
Há muito em mim que ainda pode mudar. Mas é daqui que posso começar.
Talvez estar bem consigo mesmo não signifique finalmente chegar a uma versão de nós que não possui conflitos, inseguranças ou imperfeições. Talvez signifique deixar de tratar a própria existência como um problema que precisa ser resolvido antes que possa ser vivida.
Podemos continuar mudando, aprendendo e revendo escolhas sem adiar indefinidamente o direito de estar presentes na própria vida.
Eu ainda não sou tudo aquilo que gostaria de ser. Mas sou quem existe hoje. E é daqui que posso começar.
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